Ainda muito novo escutei dos meus amigos de rua, dos colegas de escola e até mesmo de pessoas da minha família, piadas sobre meu jeito afeminado. Lembro que isto me deixava muito triste, ficava praticamente paralisado e pensativo toda vez que escutava ou reparava que era de mim um comentário ou outro. Não ficava triste pelo fato de eu ter este jeito mas pelo fato que, naquela época, eu não fazia a menor ideia do que era aquilo. Eu não pensava se eu era A ou B, C ou D, nem conhecia as opções existentes e o que elas realmente significavam.

Não me aconteceu um passe de mágica que ao acordar eu já sabia que era gay. Isso foi um processo que demorou muitos e muitos anos. E,  se isto já nasceu comigo, só fui saber depois que entendi o que era aquilo.

Não me dei conta desde sempre que sou gay. O meu primeiro passo não foi nem descobrir que sou gay e sim descobrir o que é gay, o que é sexo, desejo, sexualidade… Só após saber todas essas coisas comecei a sentir algo diferente do que parecia ser normal. Tudo o que fizeram comigo antes de descobrir estas coisas me mutilou imensamente. Foram olhares, porradas e tantas outras coisas mais… e sabe para que serviram? Para nada. Olha eu Gay aqui… Ou melhor, serviram apenas para piorar tudo o que estava por vir.

Minha ingenuidade era tamanha que não conseguia nem imaginar quais dos meus jeitos eram afeminados. Então como mudaria algo em mim que não agradava os outros se eu simplesmente desconhecia o que era? Sim, sofria uma pressão por mudanças e eu devia obedecer. Não é o que as crianças fazem? Atentamente fui reconhecendo quais dos comportamentos causavam desconforto nos outros e fui me policiando para não repetí-los. Simplesmente por medo, e não por saber o que estava fazendo. Apenas obedecia… e sofria, sofria por ser rejeitado, mal tratado, por não ser o filho querido, não ser o motivo de orgulho. Cheguei dezenas de vezes a apanhar em casa por isto. Vivia na tristeza e os poucos momentos de alegria eram abafados em nome de uma postura correta.

Daí a importância do ensinamento sobre sexualidade logo cedo. Diz logo pra esta criança que existem homens que gostam de homens, mulheres que gostam de mulheres ou homens que gostam de mulheres, e isso e aquilo. Os comentários, críticas, brincadeiras, porradas, repreensões, abandono, etc. chegam antes do ensino primário, por quê esperar para ensinar por uma coisa tão séria? Por que ensinar antes o que não deve ser, sem saber o que é…. Ensinar a fazer um gol sem mostrar uma bola.

Seria muito esclarecedor entender do que se tratava tudo aquilo que me acusavam. Mas com pouca idade?? SIM. Se as pessoas que repreendiam ou simplesmente criticavam o meu jeito afeminado faziam diretamente a mim e eu deveria compreender por que não entenderia os motivos?

Não quero dizer que a família precisa aceitar que o filho se torne o que ele É , na verdade estou dizendo, mas quem sou eu para você levar a sério? … Entendo que faz parte da criação dos país instruir e orientar seus filhos nos bons costumes que estes achem quais são. Mas papai e mamãe, se seu filho vai ser GAY, ele vai ser GAY. Assim como vi o esforço inútil dos meus país em tornar meu irmão uma pessoa melhor de caráter. Ele não é exemplo de nada!

Mas em algum momento da vida meu pai (leia-se o Mundo) deve ter comemorado a vitória sobre mim. Aqui estou eu sem o jeito afeminado. Mas infelizmente, aqui também estou eu Gay, do mesmo jeito que antes, porém, com muito “sofrimento” vivido e ainda guardado dentro de mim. Não estou mas falando daquele sofrimento que recebia nos comentários, olhares e até mesmo nos tapas. Externamente, eu mudei. E sofro por estas mudanças ATÉ HOJE. Percebo problemas ou falhas nos meus relacionamentos, em oportunidades passadas de empregos ou em momentos que deveria ter mais coragem. Posso falar mais um monte de coisa que esta mudança trouxe, mas por hoje chega. O que ela não mudou foi o fato que continuei Gay.

Então eu me pergunto: Não seria melhor ter sido orientado sobre meu jeito afeminado? Continuaria sendo gay, porém, sem tanto sofrimento, sem prejuízo a minha vida. Sofrendo apenas o problema que todo mundo sofre pelo simples fato de existir. Precisamos de mais? Entendo perfeitamente que a nossa sociedade não é tão receptível quanto parece ser e, às vezes, por defesa uma família tenta obrigar um filho a mudar o rumo da sua vida de forma agressiva e devastadora. Mas uma vez repito: Eduque, oriente, mas não maltrate, não iniba o sentimento do outro. Não comemore se conseguir fazer seu filho esconder que é gay, por que por dentro ele está sofrendo. E muito.

Sinto orgulho de tudo o que sou hoje, de onde cheguei, da forma como encaro o mundo. Aquele “preconceito” que me faziam quando criança, hoje, quando repetido, não mexe mais comigo. O que aconteceu lá atrás não posso mudar, o que acontece para frente aprendi a me virar. Poderia ter sido tudo melhor se as pessoas que me amavam soubessem tratar esta situação. Não foi assim que aconteceu, e espero que aconteça com menos crianças. Ser Gay não lhe faz inferior, mais burro ou com menos chances de se dar bem da vida. Tenha orgulho de você!

 

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